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Centro-oeste em transformação
Por Redação em 10 de August de 2026
Por Revista Téchne em 01/06/2026
Diretor de Produção da Toctao Soluções de Engenharia, Guilherme de Lima Rodrigues analisa o crescimento das cidades do Centro-Oeste, os desafios da mão de obra, os impactos dos juros elevados e as perspectivas para o mercado imobiliário e de infraestrutura nos próximos anos.
“A mão de obra é hoje o principal gargalo da construção civil”, afirma.
O Centro-Oeste brasileiro consolidou-se como uma das regiões mais dinâmicas da economia nacional. Impulsionadas pelo agronegócio, pela expansão dos serviços, pela logística e pelo crescimento populacional, cidades como Goiânia (GO), Sinop (MT) e Rio Quente (GO) vêm atraindo investimentos imobiliários, ampliando sua infraestrutura urbana e criando novas oportunidades para a construção civil.
Com quase três décadas de atuação e mais de 3,9 milhões de metros quadrados construídos, a Toctao Soluções de Engenharia acompanha de perto esse movimento. A empresa, integrante do Grupo Mauá, mantém atualmente obras em Goiás, Mato Grosso e outros estados, atuando em segmentos que vão da habitação à saúde, passando por turismo, educação e empreendimentos corporativos.
Nesta entrevista à Téchne, Guilherme de Lima Rodrigues, diretor de Produção da companhia, avalia as transformações do mercado regional, comenta os desafios relacionados à escassez de mão de obra qualificada e defende maior previsibilidade econômica e segurança jurídica para estimular novos investimentos. Para ele, apesar das incertezas provocadas pelos juros elevados e pelo cenário eleitoral, os fundamentos econômicos da região permanecem sólidos.
“Empreendimentos fundamentados em demanda real, crescimento populacional e desenvolvimento econômico consistente tendem a retomar seu ritmo natural de comercialização à medida que o cenário político se torna mais previsível.”
O Centro-Oeste tem apresentado crescimento econômico acima da média nacional em diversos indicadores. Como esse movimento tem impactado a demanda por novos empreendimentos e obras de engenharia na região?
O crescimento econômico do Centro-Oeste tem se refletido diretamente no aumento da demanda por empreendimentos imobiliários, obras corporativas, industriais e de infraestrutura. A expansão da renda, impulsionada principalmente pelo agronegócio e pelos serviços, gera uma necessidade crescente de moradia, comércio, logística e equipamentos urbanos.
Um exemplo claro é Sinop, no Mato Grosso, onde atualmente temos três obras em andamento. A cidade vem crescendo na ordem de 9 mil habitantes por ano, segundo estimativas recentes do IBGE, e o mercado local frequentemente trabalha com uma percepção ainda maior, próxima de 10 mil a 12 mil novos moradores anuais, impulsionados pela forte migração atraída pelo agronegócio e pelo setor de serviços. Esse crescimento acelerado tem se refletido no processo de verticalização urbana e na expansão do mercado imobiliário, criando oportunidades relevantes para a engenharia e para a construção civil.
Goiás e Mato Grosso concentram atualmente importantes vetores de expansão ligados ao agronegócio, logística e serviços. Quais segmentos têm gerado as principais oportunidades para a construção civil nesses estados?
Observamos oportunidades relevantes em empreendimentos residenciais, condomínios horizontais, centros logísticos, hotéis, edifícios corporativos e estruturas ligadas à cadeia do agronegócio. Entretanto, o crescimento da região não está associado apenas ao agro.
Goiânia, por exemplo, consolidou-se como um dos principais polos de saúde do país, com hospitais, clínicas e centros de diagnóstico que atendem pacientes de diversas regiões do Brasil. Esse movimento impulsiona não apenas a construção de unidades de saúde, mas também empreendimentos residenciais, hotéis, edifícios corporativos e toda uma cadeia de serviços associada.
Da mesma forma, cidades do Mato Grosso vêm apresentando forte expansão impulsionada pelo agronegócio e pela logística, gerando demanda por habitação, centros empresariais e infraestrutura urbana. O que observamos é uma diversificação crescente da economia regional, ampliando significativamente as oportunidades para a construção civil.
A interiorização dos investimentos tem fortalecido cidades médias como Sinop, Rio Quente e municípios do entorno de Goiânia. Como a Toctao avalia essa mudança geográfica do mercado e quais desafios ela impõe às construtoras?
Nós acompanhamos esse movimento de forma muito próxima, porque atualmente temos obras em todas essas regiões. Em Goiânia e Sinop atuamos com empreendimentos residenciais, corporativos e loteamentos, enquanto em Rio Quente participamos da ampliação de um importante resort turístico.
A interiorização dos investimentos é uma tendência consistente e representa uma grande oportunidade para a construção civil. No entanto, ela também traz desafios relevantes. O principal deles, sem dúvida, é a disponibilidade de mão de obra qualificada.
A construção civil vive hoje um processo de envelhecimento da sua força de trabalho, sem uma reposição proporcional pelas novas gerações, que muitas vezes encontram oportunidades em outros setores ou optam por atividades com maior flexibilidade. Em cidades como Sinop, esse desafio é ainda mais evidente. Além da concorrência da informalidade, disputamos profissionais com o agronegócio, que vive um momento de forte expansão e frequentemente oferece remunerações bastante competitivas.
Em um cenário de juros ainda elevados, como o setor da construção tem ajustado seus modelos de negócio para viabilizar novos empreendimentos e manter a atratividade dos investimentos?
A taxa de juros elevada realmente dificulta a comercialização dos empreendimentos. Ela impacta diretamente o comprador que busca sua moradia, aumentando o custo do financiamento, e também influencia o investidor, que muitas vezes encontra alternativas de renda fixa mais atrativas no curto prazo.
Nesse cenário, o setor tem buscado desenvolver produtos cada vez mais aderentes à demanda do mercado, além de trabalhar de forma muito próxima aos clientes para demonstrar os fundamentos de longo prazo do investimento imobiliário. Costumamos dizer que a decisão de compra não deve estar baseada apenas na taxa de juros do momento, mas principalmente na qualidade do projeto, na localização, no potencial de valorização e na segurança do ativo.
Qual é o impacto das atuais condições de crédito e financiamento sobre o ritmo de lançamentos, especialmente nos segmentos de médio e alto padrão?
As condições de crédito influenciam diretamente o ritmo de lançamentos, especialmente nos segmentos de médio e alto padrão, onde uma parcela significativa das vendas depende de financiamento ou de investidores.
No entanto, o mercado não deixou de lançar empreendimentos por conta dos juros. O que ocorreu foi uma mudança de comportamento. As empresas passaram a ser mais criteriosas na escolha dos projetos, priorizando localizações consolidadas, regiões com forte crescimento econômico e produtos que apresentem diferenciais claros para o cliente.
Há uma percepção de que investidores têm buscado alternativas fora dos grandes centros tradicionais. O Centro-Oeste vem conseguindo captar esse capital?
Sim. O Centro-Oeste reúne características bastante atrativas, como crescimento populacional, geração consistente de renda, expansão empresarial e disponibilidade de áreas para desenvolvimento urbano. Além disso, muitas cidades ainda apresentam potencial de valorização superior ao observado em mercados mais maduros.
Quais são hoje os principais gargalos logísticos enfrentados pela engenharia no Centro-Oeste?
Embora existam desafios logísticos, o Centro-Oeste possui uma posição geográfica bastante favorável para a construção civil. A região mantém boa conexão com São Paulo, onde está concentrada uma parcela importante das indústrias e fornecedores que atendem o setor.
Nos últimos anos também observamos avanços importantes na infraestrutura logística regional, como a melhoria da BR-163, principal corredor de transporte do Mato Grosso.
Como a disponibilidade de mão de obra qualificada tem influenciado o planejamento e a produtividade das obras?
A mão de obra é hoje o principal gargalo da construção civil.
Observamos um envelhecimento da força de trabalho do setor, sem uma reposição proporcional pelas gerações mais jovens, que frequentemente optam por outras atividades profissionais.
Diante desse cenário, entendemos que a formação profissional precisa fazer parte da solução. A Toctao tem buscado parcerias com instituições como SESI e SENAI para promover a capacitação de novos profissionais.
Como a empresa tem utilizado tecnologia e industrialização para aumentar a produtividade?
Acreditamos que uma das maiores oportunidades de ganho de eficiência na construção civil está na etapa de planejamento.
Por isso, a Toctao passou a oferecer ao mercado o serviço de gestão e compatibilização de projetos, atuando desde a contratação e coordenação dos projetistas até a entrega final de um projeto totalmente compatibilizado, reduzindo interferências e retrabalhos durante a execução da obra.
Como a proximidade das eleições influencia as decisões de investimento no setor?
A proximidade das eleições sempre representa um desafio para o ambiente de negócios, porque naturalmente aumenta a percepção de incerteza em relação aos rumos da economia, da política fiscal e das condições de crédito para os próximos anos.
No entanto, nossa experiência mostra que essa cautela normalmente é temporária.
Quais medidas seriam mais importantes para estimular o ambiente de negócios da construção civil?
A primeira medida que teria impacto direto sobre toda a cadeia produtiva da construção seria a redução estrutural das taxas de juros.
Mas tão importante quanto o custo do capital é a segurança jurídica. O investidor precisa ter previsibilidade para tomar decisões que muitas vezes envolvem horizontes de cinco, dez ou mais anos.
Onde estão as maiores oportunidades para a engenharia brasileira nos próximos anos?
Acreditamos que o crescimento será impulsionado por uma combinação de fatores. Novos polos urbanos continuarão surgindo em regiões de forte expansão econômica, enquanto investimentos em logística serão essenciais para sustentar a competitividade do agronegócio e da indústria.
Também vemos grande potencial nos segmentos de habitação, saúde, educação e empreendimentos de uso misto, que acompanham a evolução das cidades.
Para a engenharia brasileira, as maiores oportunidades estarão justamente na capacidade de integrar tecnologia, planejamento, sustentabilidade e eficiência para atender a esse novo ciclo de desenvolvimento. As empresas que conseguirem entregar previsibilidade, produtividade e qualidade terão papel protagonista na construção das cidades dos próximos anos. ■
GUILHERME DE LIMA RODRIGUES
Engenheiro civil, atua há 14 anos na Toctao Soluções de Engenharia, onde atualmente ocupa o cargo de diretor de Produção. Ao longo de sua trajetória participou da gestão e execução de empreendimentos residenciais, corporativos, hospitalares, turísticos e de infraestrutura em diferentes regiões do país. Hoje lidera as operações produtivas da empresa e acompanha diretamente obras em Goiás, Mato Grosso e outros estados brasileiros.